A verdade é que precisei me perder por completo para, finalmente, me encontrar. No fundo do poço, no auge da minha autodestruição, eu me olhei no espelho e vi alguém que não reconhecia. O rosto estava marcado pela dor e o vazio nos olhos refletia o quanto eu havia me deixado despedaçar. Foi nessa escuridão que uma faísca quase imperceptível dentro de mim se acendeu, uma pequena ressonância de vida que me lembrou que eu merecia algo além da dor. Eu precisava renascer, mesmo que isso significasse lutar contra os demônios que eu mesmo havia criado.
A batalha para me libertar das garras da dependência foi solitária e exaustiva. Cada vitória, por menor que fosse, era uma declaração de que eu ainda tinha forças para reconstruir o que havia sido destruído. Não precisava mais de muletas emocionais, de substâncias que me afastavam da minha essência. Eu estava, pela primeira vez em muito tempo, aprendendo a me enxergar com outros olhos, a sentir o pulsar da vida sem artifícios, a ouvir o eco do meu próprio coração gritando por liberdade.
Na solidão, encontrei um silêncio que não me sufocava mais, mas sim me acolhia. Comecei a apreciar essa nova quietude, na qual eu era minha própria companhia. A solidão, que antes parecia uma prisão sufocante, transformou-se em um espaço seguro onde eu podia plantar as sementes de quem eu queria ser. Foi ali, nesse vazio quase poético, que comecei a florescer, a redescobrir o prazer de existir sem precisar de validação ou do toque de outra alma.
Carrego cicatrizes, marcas que o tempo não apagará. Elas são os fantasmas do passado que, vez ou outra, sussurram promessas de dor em meus ouvidos. Mas não fujo mais dessas sombras. Deixo que me envolvam, sabendo que sua ressonância apenas fortalece minha vontade de seguir em frente. Aprendi a aceitar que a tristeza faz parte de mim, que ela molda a minha percepção do mundo e me ajuda a valorizar ainda mais os pequenos momentos de paz.
A jornada para me reencontrar é interminável, e talvez isso seja o mais belo. Existe uma melancolia suave na certeza de que sempre haverá novos pedaços de mim para descobrir e remendar. Mas sigo adiante, com a convicção de que sou capaz de me levantar quantas vezes for preciso. O que antes eram ruínas agora são alicerces; o que era escuridão, hoje é a lembrança de que a luz, por mais fraca que pareça, sempre encontra um jeito de brilhar. E eu sou a prova viva disso.
escrito em Cuiabá 24 de dezembro 2020.
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